quinta-feira, 4 de março de 2010

O Príncipe e a Sapa


Até certa ocasião ocorrida, eu era ciumenta, carente e talvez até dependente de atenção e companhia. Coisas acontecem, pessoas mudam, pessoas mudam outras pessoas, a vida se renova e a alma se lava. Eu achava, por minha breve experiência, que os homens buscavam se relacionar com mulheres independentes, capazes de sonegar uma paixão mesmo que morrendo de desejo, sensatas e produtivas. Mulheres que não cobrassem atenção do par, que não exigissem amor recíproco, que não se importassem com o parceiro tanto quanto consigo mesmas. Podia jurar que um homem independente e lindo, com inúmeras possibilidades de paixões intensas e rápidas, gostaria de ter ao seu lado uma mulher madura, sábia e viril, que soubesse lidar com qualquer situação sem se prender ao par, sem se tornar grudenta, que fosse apenas amante. Nadei, nadei e morri no mar. Afogada em minha profunda enganação, naufraguei em minha auto-suficiência. Ao pé de viver uma linda história de amor, iludida com minha crença de "romance ideal" sem ciúme e cobrança, me tornei fria e seca como a pele escamosa de um camaleão. Não demonstrei minha leve possessividade e escondi meu saudável ciumezinho, causando, assim, uma imagem cruel e perversa de menina doce e gentil. Estava realmente apaixonada por ele, mas não deixei que ele visse esse sentimento, por medo que ele me deixasse ao notá-lo. Temia que ele me visse como controladora, precipitada e sufocadora. Por essa fobia, perdi. Deixei escapar uma pessoa maravilhosa. Para meu remorso ser maior, mesmo quão grande já era, surpreendeu-me, ele, ao dizer que sentiu falta de um ciuminho, de uma cobrança, de uma atenção maior. Afinal, tal foi minha surpresa, que a história era outra. Ele é quem era carente. Ele foi quem sentiu mais a falta de uma ligação inusitada no meio da noite. Éramos como Romeu e Julieta (sobremesa), eu o queijo e ele a goiabada. Uma história ao avesso, onde a princesa era ele e o sapo era eu. Ele era, enfim, o meu príncipe! Infelizmente, percebi isso tarde. Ou melhor dizendo, já era tarde, porque eu já havia me transformado no Ogro da floresta e não seria justo aproximar-me do coelhinho indefeso. Minha pele se transfomara em uma casca dura e esverdeada, meu coração... talvez não tivesse mais afeto. Eu estava frágil. Encurralada em minha própria emboscada, pendurada em minha própria forca. Lamentavelmente eu deixei aqueles lindos olhos azuis virarem a esquina, levando seus belos e lisos fios dourados e aquele forte coração cheio de amor. Embora eu recorde com carinho essa história, trago comigo a vontade de tentar de novo e a esperança de vê-lo feliz. O que é para ser nosso, ninguém tira. Um dia eu volto a encontrar o meu Pequeno Príncipe.

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